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Na eleição de 2026, o Brasil voltará a discutir agricultura, indústria, emprego, clima, impostos e custo de vida como se fossem assuntos separados. A moda, entretanto, está exatamente no ponto em que todas essas agendas se encontram.
Vestir-se não é uma frivolidade. A roupa é necessidade básica, instrumento de expressão e parte da maneira como cada pessoa ocupa o mundo. Está presente na ida à escola, na entrevista de emprego, no culto religioso, no baile, no escritório, no Carnaval e nas grandes cerimônias da vida. Para quem vive com o orçamento apertado, o preço de uma blusa não é uma questão menor: é um fato político.
Foi por isso que a chamada “taxa das blusinhas” ganhou uma dimensão muito maior do que seus formuladores aparentemente previram. Entre agosto de 2024 e maio de 2026, compras internacionais de até US$ 50 passaram a pagar 20% de Imposto de Importação. Apresentada como uma forma de proteger a indústria nacional, a cobrança atingiu principalmente consumidores que recorriam às plataformas digitais em busca de preços que coubessem no bolso.
Agora, às vésperas da eleição, o governo zerou novamente a alíquota federal e o Congresso aprovou a mudança, embora o ICMS estadual continue sendo cobrado.
O episódio deixa uma lição importante: cobrar a blusinha não é política industrial. Zerar a taxa também não.
O Brasil não deveria obrigar sua população a escolher entre comprar uma roupa acessível e preservar empregos dentro do país. Um projeto nacional de desenvolvimento precisa ser capaz de garantir as duas coisas: preços compatíveis com a renda dos brasileiros e uma indústria nacional moderna, competitiva, sustentável e comprometida com o trabalho digno.
Os números mostram por que essa discussão deveria estar no centro das eleições. O Brasil possui a maior cadeia têxtil completa do Ocidente, reunindo desde a produção de fibras e tecidos até a confecção, o varejo e os desfiles de moda.
Segundo dados reunidos pelo Ipea, a moda responde diretamente por aproximadamente 1,3 milhão de empregos formais. Considerados os empregos indiretos e o efeito sobre a renda, são cerca de 8 milhões de pessoas, das quais 60% são mulheres. O setor é o segundo maior empregador da indústria de transformação brasileira, atrás apenas da indústria de alimentos.
Somos também o maior exportador mundial de algodão. No ano comercial 2025/2026, o Brasil exportou o recorde de 3,37 milhões de toneladas da fibra, gerando US$ 5,3 bilhões. Mais de 83% da produção brasileira da safra 2023/2024 recebeu certificação socioambiental ABR/Better Cotton.
Apesar de toda essa potência, a balança comercial da cadeia têxtil e de confecção, quando excluímos o algodão, registrou déficit de US$ 5,6 bilhões em 2023. Na prática, o Brasil exporta matéria-prima, mas ainda importa grande parte do valor agregado, da tecnologia, da escala industrial e das marcas que conquistam nossos próprios consumidores.
Temos o campo, a fibra, as mãos, a criatividade, o design e uma das culturas mais reconhecidas do planeta. O que ainda não temos é uma estratégia capaz de conectar todos esses ativos e manter mais valor, renda e propriedade intelectual dentro do país.
Defender o “direito à blusinha” não significa celebrar o consumo descartável ou retirar das grandes plataformas internacionais suas responsabilidades tributárias, trabalhistas e ambientais. Significa rejeitar a ideia de que os brasileiros de menor renda devam pagar a conta por falhas que o Estado não conseguiu enfrentar na porta das fábricas.
Também significa reconhecer que a transição para uma moda mais sustentável não pode ser feita por meio de sermões dirigidos ao consumidor. Não é razoável pedir que uma jovem da periferia pague três vezes mais por uma peça para compensar uma crise ambiental que precisa ser enfrentada por governos, indústrias, plataformas e investidores.
O próximo governo deveria assumir pelo menos cinco compromissos com a moda brasileira.
O primeiro é promover uma verdadeira modernização produtiva. Isso exige crédito, renovação de máquinas, digitalização, pesquisa, eficiência energética e apoio específico para pequenas confecções, cooperativas e marcas autorais. Proteger a indústria sem ajudá-la a inovar apenas adia o problema.
O segundo é colocar quem produz no centro da política. Costureiras, artesãs, bordadeiras e trabalhadores da confecção precisam de formação técnica, acesso a equipamentos, formalização, remuneração justa e proteção social. Não existe moda verdadeiramente sustentável sustentada por trabalho precário.
O terceiro é construir um novo pacto para o comércio digital. As plataformas internacionais devem cumprir regras de transparência, rastreabilidade, proteção do consumidor e respeito à propriedade intelectual. A necessária isonomia tributária, porém, não pode ser financiada exclusivamente por quem compra produtos de pequeno valor.
O quarto compromisso é transformar a economia circular em política industrial. O Brasil precisa estabelecer metas para reciclagem têxtil, logística reversa, reparo, reaproveitamento de materiais e desenvolvimento de novos tecidos. Uniformes, lonas, cenografias e resíduos gerados por festivais, shows, desfiles e pelo Carnaval podem ser convertidos em novos produtos, trabalho local e renda para milhares de famílias.
Por fim, precisamos tratar a moda como instrumento de projeção internacional. O mundo já consome nossas cores, músicas, festas, biomas e referências estéticas. Mas o Brasil ainda captura pouco do valor econômico produzido por esse imaginário. Moda autoral, moda periférica, artesanato, Carnaval e design brasileiro devem integrar as políticas de exportação, turismo e diplomacia cultural.
Nas eleições de 2026, todo candidato que falar em reindustrialização deveria explicar o que pretende fazer por um dos setores que mais empregam no país. Quem falar em autonomia econômica das mulheres deveria apresentar propostas para as trabalhadoras da confecção. Quem defender a agenda climática deveria dizer como pretende enfrentar o desperdício têxtil. E quem falar de cultura precisa compreender que a moda também é patrimônio, linguagem e poder.
O fim da taxa federal sobre as pequenas compras foi uma correção necessária. Mas ele não apaga o erro de ter colocado sobre o consumidor popular o peso de uma política industrial que nunca chegou a ser plenamente formulada. Sua reversão em pleno calendário eleitoral mostra como o tema foi tratado mais como problema de comunicação do que como estratégia de longo prazo.
Governo e oposição devem mais ao país do que slogans sobre impostos ou promessas genéricas de proteção à indústria. Devem responder como o Brasil poderá produzir roupas bonitas, acessíveis e sustentáveis, remunerar dignamente quem as confecciona e transformar sua criatividade em riqueza, exportação e desenvolvimento.
O direito à blusinha e o direito de produzir não são adversários.
A revolução será elegantérrima não porque todos usarão roupas caras, mas porque o Brasil aprenderá a transformar seus materiais, seus talentos e sua diversidade cultural em prosperidade compartilhada. Ela acontecerá quando deixarmos de humilhar quem precisa comprar barato, de invisibilizar quem costura e de exportar matéria-prima para depois importar valor agregado.
Moda não é uma agenda acessória. É emprego, indústria, cultura, clima, identidade e soberania.
É, portanto, um projeto de Brasil. Revolução Elegantérrima.




