Créditos da Imagem:

Andressa Anholete/STF

análises&artigos

Contenção de danos

Dada a hegemonia bolsonarista no Congresso e nos estados, o preenchimento da vaga de Luís Barroso no STF é o último contrapeso ao alcance do atual governo

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Contenção de danos

Dada a hegemonia bolsonarista no Congresso e nos estados, o preenchimento da vaga de Luís Barroso no STF é o último contrapeso ao alcance do atual governo

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O principal risco que enfrentará o Brasil nos próximos quatro anos será a falta de contrapesos. Os resultados do primeiro turno indicam que o bolsonarismo deve controlar a maioria dos governos estaduais, incluindo São Paulo e Minas Gerais, os dois maiores colégios eleitorais do país, e possivelmente o Rio de Janeiro, que ainda vai ao segundo turno. No Congresso, o PL de Flávio Bolsonaro — agora favorito à presidência — terá a maior bancada nas duas Casas. Ele teria, ainda, a prerrogativa de indicar ao menos três novos ministros para o Supremo Tribunal Federal.

Quando faltam contrapesos, o Executivo ganha espaço para concentrar poder e, eventualmente, abusar dele. Em um nível mais imediato, a sua ausência favorece a implementação de medidas que, ainda que não contribuam diretamente para a erosão democrática, ameaçam conquistas importantes, como a proteção dos direitos das minorias e do meio ambiente.

No longo prazo, a falta de contrapesos também pode causar deterioração democrática. A jurista Kim Lane Scheppele chama de legalismo autocrático uma das formas de materialização desse processo: governantes que, amparados por vitórias eleitorais, usam reformas constitucionais e mudanças na composição dos tribunais para acumular poder sem romper formalmente com a democracia. Na Turquia e na Venezuela, essa trajetória começou pelas cortes constitucionais. Erdogan as reformou por referendo em 2010, e Chávez ampliou a Suprema Corte venezuelana em 2004. Nos dois casos, as instituições foram esvaziadas até que a alternância democrática deixasse de ser uma possibilidade real.

Por isso, a vaga de Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal, ainda vazia após a rejeição de Jorge Messias pelo Senado em abril, ganhou outro peso. Jair Bolsonaro nomeou dois dos atuais ministros. Se Flávio for eleito e indicar outros três, serão cinco; se também puder preencher a vaga de Barroso, serão seis de onze — uma maioria. Indicados nem sempre votam como esperava quem os escolheu, mas a aritmética importa. Para a oposição ao bolsonarismo, preencher essa cadeira com um nome independente seria, portanto, a última medida de contenção ao seu alcance.

Trata-se de uma tarefa notadamente complicada. O preenchimento da vaga por Lula dependeria de um Senado que já rejeitou sua escolha uma vez e que sai das urnas ainda mais distante do atual governo. Para que a iniciativa seja viável, o atual presidente precisará abrir mão de Messias e optar por alguém com baixa resistência no Senado — o que exclui, na prática, alguém associado ao PT ou ao próprio presidente.

O outro desafio é o tempo. Até o segundo turno, em 25 de outubro, o Senado deve funcionar pouco. Passada a eleição, restarão menos de dois meses até o fim da sessão legislativa, em 22 de dezembro, para a indicação, a sabatina e a votação em plenário. Quem votará não é o Senado recém-eleito, que só toma posse em fevereiro de 2027, mas o atual, o mesmo que vetou Messias — com a diferença de que muitos de seus integrantes foram derrotados ou deixarão o cargo, e já se saberá qual será a configuração de poder a partir de 2027. Se Flávio vencer, Lula pedirá um voto de confiança aos senadores, que já negociarão com o próximo governo, cuja posse, pela primeira vez, ocorrerá em 5 de janeiro.

Apesar das dificuldades, trata-se de uma prerrogativa que Lula ainda tem e que agora se converte em responsabilidade. Exercê-la traz custos: indicar um nome fora do PT em plena campanha pode desagradar sua própria base, e esperar o segundo turno estreita ainda mais uma janela que já é curta. Mas, em um cenário de poucas contenções, uma única cadeira no STF pode ser a diferença entre uma democracia em erosão e outra que ainda consegue se defender.

Beatriz Rey é doutora em Ciência Política e pesquisadora na Universidade de Lisboa.

Gabriel Brasil é mestre em Economia Política Internacional pela USP.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não necessariamente refletem a opinião do Eixo Político. Os textos buscam estimular o debate sobre temas importantes para o país, sempre prestigiando a pluralidade de ideias.

Autor

Mestre em economia internacional pela Universidade de São Paulo. Baseado em Londres, tem carreira focada em análise de risco político, sustentabilidade e finanças. É autor da newsletter de crônicas Fuso Horário Zero no Substack.

Mestre em economia internacional pela Universidade de São Paulo. Baseado em Londres, tem carreira focada em análise de risco político, sustentabilidade e finanças. É autor da newsletter de crônicas Fuso Horário Zero no Substack.

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