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No início da campanha eleitoral, o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, chamou de “desumana” a impossibilidade de visitar Jair Bolsonaro no Dia dos Pais. Foi a mais recente entre as críticas que a família têm feito ao tratamento dado a Jair Bolsonaro desde a sua prisão.
Antes do súbito apreço pela dignidade carcerária e dos pedidos de anistia ao pai, o bolsonarismo tinha outros slogans. “Bandido bom é bandido morto” sempre foi o eixo doutrinário do movimento. Em 2017, o então deputado federal Jair Bolsonaro vestiu uma camisa em que se lia que os direitos humanos representavam “o esterco da vagabundagem”. No mesmo ano, seu filho, o também deputado Eduardo Bolsonaro classificou a prisão domiciliar, benefício atualmente usufruído por Jair, como “sinônimo de impunidade”, defendendo sua revogação. Voltaria ao tema para sugerir que o uso de tornozeleira eletrônica (como a que o pai calça no seu pé esquerdo) contribuem com a criminalidade ao promover “conforto ao criminoso”. Em 2018, Jair Bolsonaro afirmou que “bandido tem que apodrecer na cadeia”, porque quem está preso “fez por merecer”.
A hipocrisia na política não é novidade. O que chama a atenção agora é que todos os presidenciáveis à direita estejam defendendo - como quem paga um pedágio ideológico - as políticas de segurança implementadas em El Salvador pelo autocrata Nayib Bukele, que são objeto de profunda preocupação por quem acompanha a sua implementação.
Organizações internacionais, incluindo a ONU, denunciam o modelo desde 2023. Em manifestações sucessivas, a avaliação evoluiu de alertas sobre excessos pontuais para o pedido explícito de fim do regime, e, mais recentemente, para o enquadramento do que ocorre no país como possível crime contra a humanidade.
Entre as práticas que sustentam essa avaliação estão as dezenas de milhares de prisões em massa sem mandado individualizado,muitas vezes baseadas em critérios tão frágeis quanto uma tatuagem; a suspensão do direito à defesa; a detenção de milhares de menores de idade; celas superlotadas; práticas comparáveis à tortura, incluindo choques elétricos e privação de alimentos; além de inúmeras mortes sob custódia estatal sem esclarecimentos.
O Bukelismo é baseado, essencialmente, na erosão dos direitos humanos como forma de compensar a ineficiência das forças investigativas no enfrentamento ao crime organizado. É uma equação que seduz por dispensar o trabalho mais sofisticado e, portanto, mais lento - investigação, inteligência, devido processo - em favor da força bruta, tradicional àqueles incapazes de pensar em soluções estruturais para problemas complexos.
Nas sabatinas das últimas semanas, nenhum dos candidatos - entre Renan Santos, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema ou Ronaldo Caiado - foi capaz de explicar como o Bukelismo se concilia com a Constituição brasileira, dadas as evidentes ilegalidades em que a implementação da agenda implicaria. Pior, expuseram as incongruências da agenda com o ideário liberal que tentam cooptar, oferecendo, agora, um pacote ainda mais contraditório: liberal na economia, conservador nos costumes e oportunista na segurança.
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