Créditos da Imagem:

Charles Vieira/Divulgação Campanha Flávio Bolsonaro

análises&artigos

Liberal na economia, oportunista na segurança

Um artigo de Gabriel Brasil.

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Liberal na economia, oportunista na segurança

Um artigo de Gabriel Brasil.

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No início da campanha eleitoral, o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, chamou de “desumana” a impossibilidade de visitar Jair Bolsonaro no Dia dos Pais. Foi a mais recente entre as críticas que a família têm feito ao tratamento dado a Jair Bolsonaro desde a sua prisão.

Antes do súbito apreço pela dignidade carcerária e dos pedidos de anistia ao pai, o bolsonarismo tinha outros slogans. “Bandido bom é bandido morto” sempre foi o eixo doutrinário do movimento. Em 2017, o então deputado federal Jair Bolsonaro vestiu uma camisa em que se lia que os direitos humanos representavam “o esterco da vagabundagem”. No mesmo ano, seu filho, o também deputado Eduardo Bolsonaro classificou a prisão domiciliar, benefício atualmente usufruído por Jair, como “sinônimo de impunidade”, defendendo sua revogação. Voltaria ao tema para sugerir que o uso de tornozeleira eletrônica (como a que o pai calça no seu pé esquerdo) contribuem com a criminalidade ao promover “conforto ao criminoso”. Em 2018, Jair Bolsonaro afirmou que “bandido tem que apodrecer na cadeia”, porque quem está preso “fez por merecer”.

A hipocrisia na política não é novidade. O que chama a atenção agora é que todos os presidenciáveis à direita estejam defendendo - como quem paga um pedágio ideológico - as políticas de segurança implementadas em El Salvador pelo autocrata Nayib Bukele, que são objeto de profunda preocupação por quem acompanha a sua implementação.

Organizações internacionais, incluindo a ONU, denunciam o modelo desde 2023. Em manifestações sucessivas, a avaliação evoluiu de alertas sobre excessos pontuais para o pedido explícito de fim do regime, e, mais recentemente, para o enquadramento do que ocorre no país como possível crime contra a humanidade. 

Entre as práticas que sustentam essa avaliação estão as dezenas de milhares de prisões em massa sem mandado individualizado,muitas vezes baseadas em critérios tão frágeis quanto uma tatuagem; a suspensão do direito à defesa; a detenção de milhares de menores de idade; celas superlotadas; práticas comparáveis à tortura, incluindo choques elétricos e privação de alimentos; além de inúmeras mortes sob custódia estatal sem esclarecimentos.

O Bukelismo é baseado, essencialmente, na erosão dos direitos humanos como forma de compensar a ineficiência das forças investigativas no enfrentamento ao crime organizado. É uma equação que seduz por dispensar o trabalho mais sofisticado e, portanto, mais lento - investigação, inteligência, devido processo - em favor da força bruta, tradicional àqueles incapazes de pensar em soluções estruturais para problemas complexos. 

Nas sabatinas das últimas semanas, nenhum dos candidatos - entre Renan Santos, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema ou Ronaldo Caiado - foi capaz de explicar como o Bukelismo se concilia com a Constituição brasileira, dadas as evidentes ilegalidades em que a implementação da agenda implicaria. Pior, expuseram as incongruências da agenda com o ideário liberal que tentam cooptar, oferecendo, agora, um pacote ainda mais contraditório: liberal na economia, conservador nos costumes e oportunista na segurança.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não necessariamente refletem a opinião do Eixo Político.

Autor

Mestre em economia internacional pela Universidade de São Paulo. Baseado em Londres, tem carreira focada em análise de risco político, sustentabilidade e finanças. É autor da newsletter de crônicas Fuso Horário Zero no Substack.

Mestre em economia internacional pela Universidade de São Paulo. Baseado em Londres, tem carreira focada em análise de risco político, sustentabilidade e finanças. É autor da newsletter de crônicas Fuso Horário Zero no Substack.

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