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Economia

Nova Economia Não Se Decreta — Se Planeja por Cadeias

Existe uma pergunta que raramente aparece nos discursos sobre desenvolvimento

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Nova Economia Não Se Decreta — Se Planeja por Cadeias

Existe uma pergunta que raramente aparece nos discursos sobre desenvolvimento

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Existe uma pergunta que raramente aparece nos discursos sobre desenvolvimento, mas que separa os países que constroem riqueza dos que apenas a extraem:

Onde fica o valor — e quem decide isso?

A resposta não está em eleger o setor certo. Está em entender a cadeia inteira.

O paradoxo brasileiro que cansa de se repetir

O Brasil ocupa o 1º lugar no ranking mundial de nióbio, o 2º em grafite e terras-raras, e figura entre as maiores reservas globais de lítio e níquel. No papel, somos um país absurdamente rico.

Na prática, exportamos a pobreza da cadeia.

Segundo dados do próprio Ministério de Minas e Energia, o Brasil possui 26,4% das reservas mundiais de grafite — e responde por apenas 4,56% da produção global. No caso das terras-raras, a desproporção é ainda mais escandalosa: 19% das reservas, 0,02% da produção.

Mas o dado mais revelador não é esse. É o que acontece depois da extração.

Uma tonelada de espodumênio — o lítio bruto que sai daqui — é exportada por cerca de US$ 800. Essa mesma tonelada, refinada em carbonato de lítio grau bateria, vale entre US$ 11.000 e US$ 15.000. Transformada em células e baterias para veículos elétricos, multiplica esse valor por muitas vezes. O minério sai daqui por US$ 800. O produto acabado volta — embutido no carro elétrico importado — por dezenas de milhares de dólares.

Para as terras-raras, o BRICS Brasil estima que, para cada tonelada exportada bruta, o país perde até US$ 500.000 em receita potencial de produtos como ímãs permanentes e baterias avançadas.

Não estamos perdendo uma oportunidade. Estamos transferindo sistematicamente riqueza para fora.

A nova geopolítica é mineral — e o Brasil ainda não acordou

A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que a demanda global por minerais críticos vai quadruplicar até 2040. Para o lítio especificamente, o crescimento estimado é de 704% entre 2023 e 2040. Para a grafite, 246% no mesmo período.

Isso não é ciclo de commodity. É uma reconfiguração estrutural da economia global.

Um veículo elétrico consome mais de 200 kg de cobre, níquel, lítio, grafite e terras-raras — contra menos de 50 kg em um carro a combustão. Uma turbina eólica offshore exige até 16 toneladas de minerais por megawatt instalado. Um painel solar, mais de 7 toneladas. A infraestrutura da transição energética é, antes de tudo, mineral.

Quem controla os minerais não controla só a extração. Controla o futuro industrial do planeta.

A China entendeu isso décadas atrás. Construiu domínio não apenas nas minas, mas em todas as etapas seguintes: refino, processamento, manufatura de componentes. Hoje controla cerca de 80% da produção e processamento mundial de terras-raras, 70% da grafite refinada e deverá deter 62% da capacidade global de refino de lítio em 2030. Em abril de 2025, anunciou controles de exportação sobre elementos críticos — e o mundo percebeu, de sobressalto, que havia terceirizado sua soberania industrial.

O Brasil tem os minerais. Mas ainda exporta a mesma pobreza de sempre.

O problema não é o setor. É onde você está na cadeia.

Aqui entra o conceito que, para mim, é central para qualquer discussão séria sobre nova economia: a tese de cadeia de valor.

Não basta perguntar “mineração é boa?”. A pergunta certa é: em que ponto da cadeia o conhecimento e o valor ficam — e onde o Brasil está preso?

A resposta, no caso da mineração verde brasileira, é sempre a mesma: preso na ponta de baixo. Na extração bruta. Na etapa de menor margem, maior risco ambiental e menor geração de emprego qualificado.

Isso não é inevitável. É escolha — ou, mais precisamente, ausência de escolha deliberada.

Uma tese de cadeia de valor mapeia cada elo: da extração ao refino, do refino ao processamento químico, do processamento à manufatura de componentes, dos componentes ao produto final. Identifica onde estão os gargalos (infraestrutura, tecnologia, financiamento, regulação), quem está ocupando cada posição, e o que seria necessário para que o Brasil subisse um ou dois degraus.

O país tem hoje mais de 50 projetos de minerais para a transição energética em andamento, com investimentos previstos superiores a US$ 18 bilhões. O IBRAM estima R$ 100 bilhões em investimentos no setor entre 2025 e 2029.

O dinheiro está. A questão é: esses investimentos vão nos manter exportando pedra bruta, ou vão nos posicionar nos elos que geram riqueza real?

A resposta a essa pergunta tem peso mensurável. Um estudo publicado em 2025 pela Deloitte em parceria com a AYA Earth Partners — o maior ecossistema dedicado a acelerar a economia regenerativa e de baixo carbono do Brasil — intitulado “Minerais Críticos do Futuro e o Papel Estratégico do Brasil na Transição para uma Economia de Baixo Carbono”

Usando o Método Insumo-Produto, calculamos que, se o Brasil transformar seu potencial de produção e refino em realidade, o setor pode agregar R$ 243 bilhões ao PIB nos próximos 25 anos. Não é projeção otimista. É o que deixamos na mesa a cada ano que permanecemos presos na extração bruta.

O que destrava — e por que público e privado precisam se mover juntos

A verticalização de uma cadeia como a mineração verde não acontece por vontade de mercado. O capital privado, sozinho, não vai para o refino e o processamento no Brasil enquanto a China oferece escala, tecnologia e financiamento subsidiado.

É aqui que a política pública deixa de ser opcional.

O BNDES criou um Fundo de Investimento em Minerais Estratégicos de US$ 200 milhões — expressivo, mas ainda insuficiente diante da escala necessária. O Ministério de Minas e Energia desenvolve a iniciativa Mineração para Energia Limpa (MEL) e prepara a Política Nacional de Minerais Críticos. O Senado debate projeto que obriga o beneficiamento de terras-raras em território nacional.

São movimentos na direção certa. Mas faltam três coisas que uma tese de cadeia de valor deixa explícitas:

1. Priorização cirúrgica. Não é possível subir em todas as cadeias ao mesmo tempo. É preciso escolher onde o Brasil tem vantagem comparativa real — em qual etapa, de qual mineral, com qual parceiro tecnológico. Essa escolha exige análise, não retórica.

2. Conteúdo local como instrumento. O modelo não é novidade: a Indonésia proibiu exportação de níquel bruto em 2020 e atraiu bilhões em investimentos para refinarias domésticas. O Chile exige que parte da produção de lítio seja vendida a preços preferenciais a empresas que instalem plantas de processamento no país. O Brasil ainda não tem mecanismo equivalente estruturado.

3. Capacidade tecnológica doméstica. A maior vulnerabilidade não é o financiamento — é o conhecimento. O refino de grafite, o processamento de terras-raras, a produção de carbonato de lítio grau bateria são processos intensivos em tecnologia que hoje o Brasil não domina em escala. Isso exige parceria público-privada em P&D, formação de capital humano e transferência tecnológica — não apenas licenciamento de jazidas.

O momento é agora — ou não é

A COP30 em Belém, em 2025, colocou o Brasil no centro do palco das negociações climáticas. O mundo estava olhando. A geopolítica dos minerais críticos virou prioridade estratégica de EUA, Europa e China simultaneamente. Há janela de negociação — e, portanto, de barganha.

Essa janela não dura para sempre.

Os países que chegarem primeiro ao refino e ao processamento vão capturar contratos de longo prazo, atrair indústrias de componentes e construir conhecimento acumulado que cria barreiras à entrada. Os que chegarem depois vão encontrar o mercado já dividido — e vão, mais uma vez, exportar o barato.

O Brasil tem o que o mundo precisa. Tem energia renovável para uma mineração verde de verdade. Tem reservas que nenhuma política conseguiu dilapidar. Tem COP30 como vitrine. Tem BNDES e capacidade de financiamento.

O que falta não é recurso. É método.

É a disposição de sentar, abrir uma cadeia pelo meio, mapear os gargalos com honestidade e montar uma tese — com investimento, política pública e prazo — para subir nela.

Nova economia não se decreta. Se planeja por cadeias.

Este é o primeiro artigo de uma série sobre teses de cadeia de valor para a nova economia.

Na próxima edição: a cadeia do hidrogênio verde — onde o Brasil está, onde poderia estar, e o que trava a diferença.

Fontes: Peres, Maria Emília et al. / Deloitte + AYA Earth Partners — Minerais Críticos do Futuro e o Papel Estratégico do Brasil na Transição para uma Economia de Baixo Carbono (2025); IEA (Global Critical Minerals Outlook 2024/2025); Ipea/ANM (Estudo sobre Minerais Estratégicos, dez. 2025); PwC Brasil (Minerais Críticos e a Nova Ordem Energética, 2025); IBRAM; Ministério de Minas e Energia (Guia para o Investidor Estrangeiro em Minerais Críticos, 2025/2026); Wilson Center.

Autor

Passo minha vida atuando na interseção entre economia, políticas públicas e transformação produtiva, antes que essa interseção se torne consenso. Tenho a convicção de que o maior obstáculo ao desenvolvimento não é a falta de potencial. É a falta de arquitetura: alguém capaz de transformar esse potencial em decisões, investimentos e políticas públicas que realmente saiam do papel. Construí essa visão na prática. Iniciei minha trajetória em operações industriais de grande escala, liderando projetos de inovação aplicada e transição energética na Vale, incluindo um projeto pioneiro de substituição de combustíveis fósseis por biomassa na Amazônia. Depois, na Deloitte, ampliei esse trabalho para setores inteiros da economia, atuando em descarbonização industrial, minerais críticos, infraestrutura para a transição, financiamento climático e cidades sustentáveis. Hoje sou fundadora do Orbis, uma plataforma institucional dedicada a destravar os principais gargalos da nova economia e acelerar o desenvolvimento socioeconômico por meio de negócios concretos e políticas públicas executáveis. Paralelamente, lidero iniciativas globais em parceria com o UNFCCC Innovation Hub, com atuação direta no ecossistema da COP e em fóruns internacionais voltados à transição energética e aos combustíveis sustentáveis. Não espero que a agenda esteja pronta. Eu ajudo a construí-la. Se você atua na convergência entre capital, indústria e as economias que estão sendo construídas agora, será um prazer nos conectarmos.

Passo minha vida atuando na interseção entre economia, políticas públicas e transformação produtiva, antes que essa interseção se torne consenso. Tenho a convicção de que o maior obstáculo ao desenvolvimento não é a falta de potencial. É a falta de arquitetura: alguém capaz de transformar esse potencial em decisões, investimentos e políticas públicas que realmente saiam do papel. Construí essa visão na prática. Iniciei minha trajetória em operações industriais de grande escala, liderando projetos de inovação aplicada e transição energética na Vale, incluindo um projeto pioneiro de substituição de combustíveis fósseis por biomassa na Amazônia. Depois, na Deloitte, ampliei esse trabalho para setores inteiros da economia, atuando em descarbonização industrial, minerais críticos, infraestrutura para a transição, financiamento climático e cidades sustentáveis. Hoje sou fundadora do Orbis, uma plataforma institucional dedicada a destravar os principais gargalos da nova economia e acelerar o desenvolvimento socioeconômico por meio de negócios concretos e políticas públicas executáveis. Paralelamente, lidero iniciativas globais em parceria com o UNFCCC Innovation Hub, com atuação direta no ecossistema da COP e em fóruns internacionais voltados à transição energética e aos combustíveis sustentáveis. Não espero que a agenda esteja pronta. Eu ajudo a construí-la. Se você atua na convergência entre capital, indústria e as economias que estão sendo construídas agora, será um prazer nos conectarmos.

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