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A escolha do próximo Secretário-Geral da ONU, em 2026, acontecerá em um dos momentos mais desafiadores da história do multilateralismo: pressão fiscal, rivalidade geopolítica e crescente erosão de confiança nas instituições internacionais.
Mas há dois pontos pouco ditos, e politicamente incontornáveis.
A América Latina e o Caribe seguem sendo uma das regiões menos representadas na liderança recente da ONU.
Mais do que uma questão de rotação informal, trata-se de contexto histórico.
Somos uma região marcada pela relativa ausência de conflitos interestatais, pela tradição de resolução pacífica de controvérsias e pelo compromisso com o direito internacional — e, apesar de desafios persistentes, com avanços consistentes na adesão a regimes de direitos humanos.
Em um cenário em que grandes potências tensionam e, em alguns casos, contornam as regras multilaterais, a América Latina ocupa uma posição singular.
Seja por compromisso ou necessidade, somos uma das últimas regiões a ainda apostar na ONU como espaço legítimo de coordenação global.
Mas quem assumir em 1º de janeiro de 2027 terá que ser mais do que uma liderança latino-americana e caribenha.
O mundo aguarda a indicação da primeira mulher para liderar o sistema multilateral.
As mulheres representam quase metade da população mundial, cerca de 50%, e nunca ocuparam o cargo de Secretária-Geral da ONU.
Isso não é apenas uma lacuna simbólica.
É um déficit de legitimidade.
Se este é o momento da América Latina, também deve ser o momento de uma liderança feminina.
Não por identidade, mas por coerência com os princípios que o próprio sistema multilateral afirma defender: representação, inclusão e universalidade.
Nomes qualificados não faltam na região, entre diplomatas, chefes de Estado e lideranças multilaterais. O debate já começa a ganhar forma.
A questão central, no entanto, permanece: a próxima liderança da ONU não será definida apenas por geografia ou gênero, mas pela capacidade de reconstruir a credibilidade do sistema e transformar compromissos em resultados.
E isso exige algo cada vez mais raro: lideranças que ainda acreditam no multilateralismo e sabem fazê-lo funcionar.




