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A Guerra do Paraguai que não cabe num tuíte

Lula acertou ao dizer que o Paraguai começou o conflito, mas o livro “Maldita Guerra”, de Doratioto, também desmente quem glorifica a guerra. Foi um horror.

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A Guerra do Paraguai que não cabe num tuíte

Lula acertou ao dizer que o Paraguai começou o conflito, mas o livro “Maldita Guerra”, de Doratioto, também desmente quem glorifica a guerra. Foi um horror.

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Na sexta-feira passada (24), em evento no interior de São Paulo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ressuscitou um debate sul-americano de mais de 150 anos. “A gente gosta de paz”, afirmou, “mas a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco anos”. A declaração desencadeou uma enxurrada de brigas on-line, ora glorificando a Guerra do Paraguai, ora repetindo um discurso sobre o conflito que a historiografia séria aposentou há muito tempo. O comentário de improviso também acabou virando um incidente diplomático. Nesta quinta-feira (27), o governo de Santiago Peña convocou o embaixador brasileiro em Assunção, José Antônio Marcondes de Carvalho, para prestar esclarecimentos.

“Maldita Guerra”, do historiador Francisco Doratioto, é a obra de referência sobre o conflito. Este ano, o livro foi eleito, com justiça, uma das melhores publicações brasileiras de não-ficção do século XXI por um painel de especialistas escutado pela Folha de São Paulo. Fundada em arquivos abertos e fontes primárias, ela supera tanto a velha versão dos vencedores – a guerra como um choque entre “civilização e barbárie”, vendida pelos propagandistas do Império – quanto o revisionismo dos anos 1960 e 1970, que, no calor das ditaduras do Cone Sul, transformou Solano López num herói anti-imperialista e o Paraguai num modelo autônomo de desenvolvimento sufocado pela Inglaterra. Doratioto mostrou que os ingleses não desejavam o conflito, por meio de cartas e comunicados diplomáticos, e relembrou que as relações diplomáticas entre Rio de Janeiro e Londres estavam rompidas, como resultado de um episódio conhecido como Questão Christie. Além disso, o autor mostra que, muito embora o revisionismo paraguaio tenha alçado o antigo ditador à condição de herói nacional, Lula não mentiu sobre o principal ponto de controvérsia. Foi o Paraguai que atacou primeiro.

Em 15 e 24 de dezembro de 1864, duas expedições militares partiram de Assunção e de Concepción para invadir o Mato Grosso. A fluvial, com 4.200 homens sob o comando do coronel Vicente Barrios, cunhado de Solano López, tomou o forte Coimbra e, poucos dias depois, ocupou Corumbá, como o próprio presidente da República lembrou. Em abril de 1865, o Paraguai invadiu Corrientes, na Argentina. Foram essas invasões que levaram, em 1º de maio de 1865, à formação da Tríplice Aliança. Doratioto é categórico ao criticar a retórica de Assunção, que, “negando a sequência cronológica dos acontecimentos”, “se apresentava como agredido, quando era o agressor”.

Lula cometeu apenas um pequeno deslize: o Paraguai não invadiu o Uruguai. Ali, quem interveio militarmente, em setembro de 1864, foi o próprio Império brasileiro; o Paraguai era aliado dos blancos uruguaios, e sua marcha em direção ao Uruguai se deu pela invasão do Rio Grande do Sul, no ano de 1865. Mas a imprecisão não resgata a fábula do “pobre Paraguai invadido”. Quem disparou os primeiros tiros, contra território brasileiro e argentino, foi Solano López – que apostou numa “guerra-relâmpago” e, só nas investidas contra Corrientes e o Rio Grande do Sul, sacrificou de 18 a 20 mil homens sem obter ganho militar ou político algum. A natureza imperialista da política externa brasileira do período não muda esse fato.

Essa ofensiva, ademais, não foi gentil com os civis – detalhe que o culto a Solano López e a demonização da postura brasileira costumam varrer para debaixo do tapete. Em Corumbá, segundo Doratioto, os paraguaios tomaram “um butim de imenso valor”; os moradores que fugiram para o mato foram caçados e obrigados a voltar, encontrando as casas saqueadas. “As mulheres sofreram violências sexuais”; o próprio coronel Barrios ficou com uma jovem depois de atirar o pai dela para fora do barco e ameaçá-lo de fuzilamento. Homens acusados de espionagem foram mortos a lança.

No episódio de violência mais famoso, quando um vapor brasileiro, de nome “Anhambaí”, foi capturado, os marinheiros que ficaram a bordo foram mortos a espada e machadinha. Em seguida, os que tentaram escapar a nado também foram alvejados por tiros. No final, os corpos tiveram as orelhas arrancadas e penduradas para secar em cordas nos mastros do navio inimigo, “à vista do público”, como um recado dos invasores. Na colônia de Dourados, defendida por apenas dezoito soldados, o tenente Antônio João Ribeiro escreveu antes de morrer que “sei que morro, mas o meu sangue e dos meus companheiros servirá de protesto solene contra a invasão do solo de minha pátria”. Em julho de 1866, por ordem de Solano López, os 400 a 500 civis que ainda viviam em Corumbá receberam três horas para embarcar rumo a Assunção, sob pena de fuzilamento. Partiram com a roupa do corpo. Isso também fez parte da Guerra do Paraguai, o maior conflito armado internacional da história da América Latina.

Nada disso, porém, absolve o Brasil. Nem deveria. Reconhecer que Solano López começou a guerra e brutalizou civis não é o fim da conversa. Pelo contrário, é apenas o seu começo – inclusive, cronologicamente. Porque o Exército Brasileiro cometeu os seus próprios horrores, numa escala ainda mais grave. O pior disso tudo é que os episódios mais tristes vieram depois que a guerra já estava, para todos os efeitos militares, ganha.

Quando as tropas brasileiras ocuparam Assunção, em 1º de janeiro de 1869, o Exército paraguaio já havia sido destruído nas batalhas de dezembro. A capital foi saqueada – pelos próprios soldados brasileiros, admitiu o conselheiro Paranhos, o Visconde de Rio Branco: “nossa gente também teve parte no saque desta cidade”. Soldados chegaram a cobrar resgate para devolver às famílias crianças perdidas, e o “roubo de crianças se tornou um negócio”. O próprio Caxias – velho, doente e sem enxergar sentido em prosseguir – declarou a guerra terminada na ordem do dia de 14 de janeiro de 1869, disse não ser “capitão-do-mato para andar à cata de López” e voltou ao Rio de Janeiro sem esperar ordens do imperador. Oficiais defendiam a paz imediata e um governo provisório paraguaio já estava, inclusive, sendo montado. Até o negociador argentino Rufino de Elizalde lamentava a destruição feita “para tirar López do Paraguai”. Outro desfecho era possível. Nada o impedia.

Mas o Império queria a cabeça do ditador. “A vitória é questão de honra, e eu não transijo”, teria dito dom Pedro II, segundo relatado pela biografia escrita por José Murilo de Carvalho. Em carta de 1869, o imperador explicou a sua lógica: para ele, López poderia reunir mil homens e forçá-lo a negociar, o que seria inaceitável “depois da afronta que ele nos fez e crueldades que praticou contra tantos brasileiros”. Movido pela vingança, insistiu na guerra, e assim veio o ano mais sangrento de todo o confronto – o que separou o saque de Assunção da morte de Solano López em Cerro Corá, no dia 1º de março de 1870. Na tomada de Peribebuí, em agosto de 1869, houve degola de prisioneiros por ordem do conde d’Eu, marido da princesa Isabel – responsabilidade confirmada pelo secretário do próprio conde, o Visconde de Taunay. Embora o conceito não existisse na época, sendo anacrônico mencioná-lo, hoje ele constituiria um crime de guerra. Houve requintes de crueldade. O coronel paraguaio Pablo Caballero, já rendido, foi, segundo uma das versões registradas por Doratioto, amarrado às rodas de dois canhões diante da esposa e degolado. Semanas antes, ao ocupar San Pedro, o general Câmara mandara degolar a maior parte dos prisioneiros. Nas trincheiras, meninos que combatiam com barbas postiças para parecerem adultos encontraram o mesmo destino.

O símbolo dessa insensatez atingiu o cúmulo na Batalha de Campo Grande, ou Acosta Ñu, em 16 de agosto de 1869. Contra mais ou menos 20 mil aliados, Solano López lançou cerca de 6 mil paraguaios, muitos deles meninos de 14 e 15 anos. O saldo diz tudo: 26 mortos do lado aliado contra cerca de 2 mil paraguaios. Foi um massacre. “Não se concedia perdão”, registrou uma testemunha; “os feridos foram mortos logo que encontrados”, alguns achados três dias depois no capim alto, “clamando por perdão. Mas isso de nada lhes valeu”. São registros de um diário da época, mantido pelo capitão Pedro Werlang, e resgatados em “Maldita Guerra”. O oficial brasileiro Dionísio Cerqueira também usou a própria pena para denunciar a violência. Ele descreveu os “soldadinhos, cobertos de sangue, com as perninhas quebradas”, e recolheu a frase da tropa que resume o abismo moral daquele dia: “não dava gosto a gente brigar com tanta criança”. O próprio Doratioto reconhece que foi “um banho de sangue”. Ainda que tivesse sido iniciado por Solano López, ao mandar adolescentes disfarçados para a morte – versão acolhida pelo historiador –, ele foi continuado pelos soldados brasileiros, “embrutecidos por anos de guerra”, de maneira inaceitável e brutal.

Foi uma catástrofe, mas não é verdade que o Paraguai tinha 1,3 milhão de habitantes e perdeu 99% de seus homens, como parte dos revisionistas afirma: a população pré-guerra estava entre 400 e 450 mil, tornando impossível o número de mortos das estimativas exageradas. Mas também não se pode minimizar o saldo final do conflito. Os cálculos sérios de perda populacional variam bastante – de menos de 10%, na contagem mais conservadora, a 60% ou 70%, na mais alta –, e a maioria dos mortos não tombou em combate, e sim de fome, de doença e de execução. De qualquer forma, o próprio Doratioto resume: entre 1865 e 1870, o país “sofreu uma catástrofe demográfica”. O próprio Caxias previra o tamanho do estrago: “o Paraguai fica arrasado para 50 anos, pelo menos”. Não há desculpa para isso, tampouco adianta apontar o dedo para o começo do confronto como uma justificativa para a sede de sangue. O Império escolheu prosseguir com a violência mesmo quando já havia conquistado a capital rival.

A desculpa comum a alguns brasileiros orgulhosos é que o Tratado da Tríplice Aliança exigia a captura do ditador paraguaio. Ela também não cola, porque o Império não viu problema algum em rasgar o acordo assim que foi conveniente. Mais especificamente, o território de Chaco Boreal havia sido prometido à Argentina no documento firmado pelos aliados, mas o Brasil se recusou a entregá-lo, pois estava preocupado com o fortalecimento de Buenos Aires e desejava preservar o Paraguai como um Estado-tampão. Em janeiro de 1872, o governo brasileiro firmou o Tratado Loizaga-Cotegipe, no qual assinou uma paz e um acordo de limites em separado com os rivais, fixando a fronteira no rio Apa – o que o Império pleiteava desde os anos 1850 – e garantindo a livre navegação, ponto decisivo para os interesses nacionais. Isso violava frontalmente a cláusula do Tratado da Tríplice Aliança que proibia qualquer paz individual com o vencido. Ou seja, a violência foi uma escolha. O caminho da desonra foi trilhado deliberadamente pelo Estado Brasileiro.

No entanto, desde o século XIX, a forma encontrada pelos paraguaios para lidar com o conflito foi embarcar na seara de um perigoso revisionismo. Ainda hoje, Solano López é considerado um herói nacional e os seus restos mortais se encontram no Panteão dos Heróis. O ressentimento contra o Brasil também sobrevive no Paraguai, e ele é mais do que compreensível – razão pela qual uma frase descuidada do presidente, mais uma de tantas de quando fala no improviso, basta para um embaixador ser convocado. Isso não justifica, entretanto, tomar partido contra a verdade sobre o passado. Não há qualquer dúvida sobre quem deu início à guerra. O responsável foi o Paraguai, na figura de um presidente com um projeto expansionista e megalomaníaco de alcançar uma saída para o mar.

De qualquer forma, é preciso olhar com empatia para a forma pela qual os nossos vizinhos lidam com a situação. Talvez seja a lição que atravessa um século e meio e desemboca no debate de hoje. A discussão não deveria se tornar uma disputa de quem foi pior, fazendo um placar macabro de atrocidades. O ideal é entender o que custa transformar uma “vitória” em “questão de honra”. Onde a recusa em negociar e uma caçada levada até as últimas consequências pode fazer com o sentimento de humanidade. No final, a conta sempre é paga pelos mais fracos, como os civis e as crianças. O Brasil, ainda bem, escolheu outro caminho a partir do século XX. Há mais de cem anos, o país resolve as suas divergências sem guerras entre nações. O governo definiu várias fronteiras por meio da arbitragem internacional, acolhendo até as decisões desfavoráveis aos interesses nacionais, como na Questão do Pirara (1904) – tema reacendido recentemente pelo irredentismo venezuelano frente à Guiana, já que abrimos mão de uma área na bacia do rio Essequibo. Nosso país fez da negociação e da não-intervenção uma tradição diplomática. É um patrimônio que não se defende com bravata sobre invasões antigas, e sim lembrando por que nunca mais quisemos passar por aquilo.

E a mesma régua vale para fora daqui. Se olhamos para Acosta Ñu com horror, é porque aprendemos – tarde e à força – que a morte de civis e de crianças jamais podem ser vistos como mero dano colateral de uma guerra. Episódios assim dão a medida exata da barbárie, em 1869 ou em qualquer guerra do mundo, inclusive na atualidade. Guardar isso é o mínimo que devemos aos meninos de barbas postiças que ficaram no campo de Campo Grande. E para preservar um futuro em que o diálogo tenha lugar antes das armas.

Este artigo é uma opinião do autor e não reflete necessariamente a posição do Eixo Político.

Autor

Thiago Süssekind é advogado, bacharel em Direito pela Uerj e mestre em Políticas Públicas pela Universidade de Oxford. No Rio de Janeiro, liderou um movimento de renovação política por dois anos e foi um dos organizadores dos atos pelo impeachment de Bolsonaro em 2022.

Thiago Süssekind é advogado, bacharel em Direito pela Uerj e mestre em Políticas Públicas pela Universidade de Oxford. No Rio de Janeiro, liderou um movimento de renovação política por dois anos e foi um dos organizadores dos atos pelo impeachment de Bolsonaro em 2022.

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