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Se a Presidência de Jair Bolsonaro representou uma ameaça à democracia — pelo culto à ditadura militar e pela trama golpista que culminou no 8 de janeiro —, a pré-candidatura de seu filho, Flávio Bolsonaro, inaugura uma ameaça de outra natureza: à soberania nacional. O método mudou; o projeto, não. Onde o pai conspirava por dentro, contra as instituições constitucionais, o filho conspira por fora, convocando uma potência estrangeira a arbitrar nossos assuntos internos.
A lista de ingerências é longa e explícita. Em 2025, o tarifaço de 50% imposto pelo presidente ds Estados Unidos, Donald Trump, teve como justificativa declarada o julgamento de Bolsonaro: uma sanção econômica contra um país inteiro para proteger um réu. Vieram as sanções da Lei Magnitsky contra ministros do STF e outras autoridades, uma tentativa de punir, com o cacife financeiro americano, magistrados que exerciam jurisdição brasileira. E, em 2026, a ameaça de novo tarifaço, que mira o Pix e a regulação das plataformas digitais, ataca políticas públicas soberanas sob o rótulo de “práticas desleais”. Em todos esses episódios, houve celebração por parte da família Bolsonaro e atuação por meio de lobby explícito de Eduardo Bolsonaro, com o consentimento do seu irmão mais velho.
A designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos EUA, em vigor a partir deste mês e comemorada por Flávio Bolsonaro como conquista pessoal dias após visitar Trump, merece atenção especial. Que fique claro: o combate a essas facções é legítimo e urgente, e o Estado brasileiro precisa agir com muito mais firmeza — algo que, registre-se, o próprio Bolsonaro não fez em quatro anos de governo, período em que o investimento federal em segurança pública minguou e as facções avançaram sobre o Norte e o Nordeste. Em contrapartida, o atual governo federal tenta ampliar os esforços de coordenação nacional de combate ao crime organizado, como por meio da “PEC da Segurança”, tendo em vista que a competência constitucional sobre a segurança pública se concentra nos estados, o que enfrenta forte resistência da direita brasileira, especialmente pelos bolsonaristas representados no Congresso Nacional. Ora, não se pode nacionalizar o combate ao crime, mas, paradoxalmente, poderia se delegar internacionalmente para tutela de outro país?
Não, terceirizar a uma potência estrangeira a definição de quem é inimigo dentro do nosso território é abrir mão da jurisdição nacional. Pior: a medida arma Washington com poder sobre o nosso sistema financeiro e impactar nossa economia. Sob a legislação antiterror americana, bancos e empresas que transacionam em dólares passam a operar sob risco de sanção secundária, obrigados a obedecer a determinações dos EUA para não serem expulsos do sistema financeiro global. É interferência indireta, mas profunda, no funcionamento da nossa economia — feita sem um tiro, pelo simples controle dos fluxos financeiros.
Na obra “Como as Democracias Morrem”, Levitsky e Ziblatt lembram que a democracia depende de normas não escritas: a tolerância mútua e a contenção no uso do poder. Reconhecer no adversário o direito legítimo de governar, ainda que se discorde de cada uma de suas políticas, é condição da convivência democrática. Sabotar esse direito, seja pela tentativa de golpe, seja pela convocação de ingerência externa, é a mesma deslealdade vestida com roupas diferentes.
E tudo isso se inscreve num projeto maior. A nova Doutrina Monroe de Trump e Marco Rubio — o “Corolário Trump”, que trata a América Latina como quintal de sua casa — é imperialismo reciclado. Em janeiro de 2026, os EUA invadiram a Venezuela e sequestraram Nicolás Maduro; mantêm Cuba sob asfixia e ameaça constante; cogitam ataques militares em território mexicano sob o pretexto combate ao narcotráfico; falam em anexar o Canadá como 51º estado, ignorando o que pensam os canadenses sobre o assunto; e ameaçam “retomar” o Canal do Panamá, pressionando o país a romper laços com a China, que ganhou terreno na América Latina nos últimos anos após os EUA ignorarem seus próprios vizinhos. É a lógica da esfera de influência, do vizinho reduzido a satélite. Apoiar essa engrenagem contra a própria nação não é diplomacia, é vassalagem geopolítica.
A resposta não é o antiamericanismo, mas o patriotismo constitucional: o amor à pátria traduzido em defesa da democracia e da soberania. Contra o entreguismo e o neocolonialismo voluntário, é preciso defender a política externa altiva e independente do Brasil — uma nação que coopera de igual para igual e não se ajoelha diante de imperador algum.
Cooperação internacional, sim: entre nações iguais e soberanas, seja no comércio seja no combate ao crime organizado. Submissão voluntária, jamais. Quem chama o estrangeiro para resolver as contas de casa não é patriota, é súdito.
As opiniões expressas neste artigo são de inteira responsabilidade do autor e não representam o posicionamento editorial do Eixo Político. A publicação de artigos assinados tem como objetivo fomentar o debate plural sobre temas de interesse público.




