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COP30, Belém e a fala do chanceler alemão: entre o preconceito e a realidade estrutural que o Brasil insiste em esconder

A fala do chanceler alemão Olaf Scholz — ao relatar que perguntou a seus jornalistas se “alguém gostaria de morar em Belém” e não ver nenhuma mão levantada — foi interpretada imediatamente como xenofóbica, preconceituosa e carregada de um viés eurocêntrico que há décadas contamina a relação entre Europa e América Latina.

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COP30, Belém e a fala do chanceler alemão: entre o preconceito e a realidade estrutural que o Brasil insiste em esconder

A fala do chanceler alemão Olaf Scholz — ao relatar que perguntou a seus jornalistas se “alguém gostaria de morar em Belém” e não ver nenhuma mão levantada — foi interpretada imediatamente como xenofóbica, preconceituosa e carregada de um viés eurocêntrico que há décadas contamina a relação entre Europa e América Latina.

Publicado em:

sexta-feira, 21 de novembro de 2025 às 09:04

A fala do chanceler alemão Olaf Scholz — ao relatar que perguntou a seus jornalistas se “alguém gostaria de morar em Belém” e não ver nenhuma mão levantada — foi interpretada imediatamente como xenofóbica, preconceituosa e carregada de um viés eurocêntrico que há décadas contamina a relação entre Europa e América Latina. E é. A forma como ele coloca a frase não é apenas infeliz; é desrespeitosa, desinformada e reforça um estigma sobre regiões periféricas do Sul Global.

Mas por trás da indignação justificada existe uma discussão séria que o Brasil evita enfrentar. A escolha de Belém como sede da COP30 expôs, para o mundo, uma série de fragilidades estruturais que não surgiram agora — e que não podem ser escondidas sob o tapete por discursos oficiais.

Uma COP exige padrões internacionais — e Belém não os tinha

Para entender a dimensão do problema, precisamos olhar para números:

  • A COP28, em Dubai, recebeu quase 200 mil participantes.

  • A COP26, em Glasgow, recebeu cerca de 40 mil delegados oficiais e mais de 80 mil participantes indiretos.

  • A estimativa inicial para Belém é de 70 a 100 mil visitantes, número superior à capacidade turística anual da cidade.

Belém simplesmente não possui infraestrutura hoteleira, aeroportuária e urbana compatível com o evento. O Aeroporto Internacional de Val-de-Cans opera, em dias normais, com cerca de 5 milhões de passageiros por ano, enquanto Dubai ultrapassa 86 milhões. Mesmo cidades latino-americanas usadas como referência — Santiago, Buenos Aires, Bogotá — têm capacidade 3 a 5 vezes superior.

A geografia amplifica o desafio

Belém é uma cidade-ilha conectada por poucas vias. Seu centro histórico sofre alagamentos frequentes. A cidade ainda enfrenta:

  • Calor extremo com sensação térmica acima de 40ºC na maior parte do ano.

  • Sistema de saneamento insuficiente (menos de 20% da cidade possui coleta e tratamento adequados).

  • Capacidade hoteleira reduzida (aproximadamente 13 mil leitos formais).

  • Baixa conectividade aérea internacional.

Ou seja: não é apenas preconceito europeu — é uma questão logística objetiva.

O que a fala de Scholz revela

Ela revela um problema duplo:

  1. Um olhar colonial, onde europeus se sentem à vontade para julgar
    cidades latino-americanas sem compreender seu contexto social,
    cultural e histórico.

  2. Um incômodo brasileiro real, porque sabemos que a COP está
    sendo usada como vitrine política e não como demonstração de
    estrutura consolidada.

O Pará merece a COP. A Amazônia merece a COP.

Mas a forma como o Brasil está conduzindo o processo evidencia improviso.

O risco da “Amazônia como cenário”

Se a Amazônia for tratada como pano de fundo fotogênico — e não como território vivo, complexo, urbano e cheio de desafios — o país transformará a COP30 num desfile de intenções vazias. O Norte não pode ser um parque temático para diplomatas.

A verdade é dura, mas necessária: a fala do chanceler é sintoma; o problema é estrutural. E, se o Brasil quiser mesmo mostrar a Amazônia como potência global, precisa assumir que a região exige investimento permanente, não tapume.

Autores

Graduado em Relações Internacionais e Marketing com foco em ciência de dados, especialista em comunicação política e marketing. Possui pós-graduação em Marketing pela Universidade de Illinois em Urbana-Champaign e especialização em análise de risco político pela FGV.

Graduado em Relações Internacionais e Marketing com foco em ciência de dados, especialista em comunicação política e marketing. Possui pós-graduação em Marketing pela Universidade de Illinois em Urbana-Champaign e especialização em análise de risco político pela FGV.

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