Publicado em:
sexta-feira, 21 de novembro de 2025 às 09:04
A fala do chanceler alemão Olaf Scholz — ao relatar que perguntou a seus jornalistas se “alguém gostaria de morar em Belém” e não ver nenhuma mão levantada — foi interpretada imediatamente como xenofóbica, preconceituosa e carregada de um viés eurocêntrico que há décadas contamina a relação entre Europa e América Latina. E é. A forma como ele coloca a frase não é apenas infeliz; é desrespeitosa, desinformada e reforça um estigma sobre regiões periféricas do Sul Global.
Mas por trás da indignação justificada existe uma discussão séria que o Brasil evita enfrentar. A escolha de Belém como sede da COP30 expôs, para o mundo, uma série de fragilidades estruturais que não surgiram agora — e que não podem ser escondidas sob o tapete por discursos oficiais.
Uma COP exige padrões internacionais — e Belém não os tinha
Para entender a dimensão do problema, precisamos olhar para números:
A COP28, em Dubai, recebeu quase 200 mil participantes.
A COP26, em Glasgow, recebeu cerca de 40 mil delegados oficiais e mais de 80 mil participantes indiretos.
A estimativa inicial para Belém é de 70 a 100 mil visitantes, número superior à capacidade turística anual da cidade.
Belém simplesmente não possui infraestrutura hoteleira, aeroportuária e urbana compatível com o evento. O Aeroporto Internacional de Val-de-Cans opera, em dias normais, com cerca de 5 milhões de passageiros por ano, enquanto Dubai ultrapassa 86 milhões. Mesmo cidades latino-americanas usadas como referência — Santiago, Buenos Aires, Bogotá — têm capacidade 3 a 5 vezes superior.
A geografia amplifica o desafio
Belém é uma cidade-ilha conectada por poucas vias. Seu centro histórico sofre alagamentos frequentes. A cidade ainda enfrenta:
Calor extremo com sensação térmica acima de 40ºC na maior parte do ano.
Sistema de saneamento insuficiente (menos de 20% da cidade possui coleta e tratamento adequados).
Capacidade hoteleira reduzida (aproximadamente 13 mil leitos formais).
Baixa conectividade aérea internacional.
Ou seja: não é apenas preconceito europeu — é uma questão logística objetiva.
O que a fala de Scholz revela
Ela revela um problema duplo:
Um olhar colonial, onde europeus se sentem à vontade para julgar
cidades latino-americanas sem compreender seu contexto social,
cultural e histórico.Um incômodo brasileiro real, porque sabemos que a COP está
sendo usada como vitrine política e não como demonstração de
estrutura consolidada.
O Pará merece a COP. A Amazônia merece a COP.
Mas a forma como o Brasil está conduzindo o processo evidencia improviso.
O risco da “Amazônia como cenário”
Se a Amazônia for tratada como pano de fundo fotogênico — e não como território vivo, complexo, urbano e cheio de desafios — o país transformará a COP30 num desfile de intenções vazias. O Norte não pode ser um parque temático para diplomatas.
A verdade é dura, mas necessária: a fala do chanceler é sintoma; o problema é estrutural. E, se o Brasil quiser mesmo mostrar a Amazônia como potência global, precisa assumir que a região exige investimento permanente, não tapume.




