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terça-feira, 16 de setembro de 2025 às 17:43
O atentado contra Charlie Kirk serve como alerta para refletirmos sobre o que o mundo tem se tornado. Quando a divergência de pensamento passa a custar vidas, entramos em um terreno perigoso e sintomático da era de extremos em que vivemos. Pensando no tema, levantei alguns números para dimensionar o problema no Brasil.
Segundo o Observatório de Violência Política e Eleitoral (OVPE) da Unirio, apenas no segundo trimestre de 2025, 22 partidos tiveram lideranças ou familiares vítimas de violência. O PT lidera o ranking, com 21 episódios (16,2% do total), seguido do PL, com 19 (14,7%). Ao todo, foram 130 casos registrados nesse trimestre.
Outro relatório, Violência Política e Eleitoral no Brasil, das organizações Justiça Global e Terra de Direitos, mostra que desde 2016 os episódios cresceram quase 12 vezes — de 46 no primeiro ano do estudo para 558 em 2024. Apesar de ser tentador concluir que esses dados revelam que a violência política deixou de ser um fenômeno episódico e tornou-se estrutural, especialmente em períodos eleitorais, é preciso lembrar que a violência política é tradição em nosso país.
E a lista é extensa. Para mencionar alguns que me vêm à mente: o assassinato do seringueiro Chico Mendes; o atentado da Rua Tonelheiro, que quase tirou a vida de Carlos Lacerda; a tentativa de assassinato de Getúlio Vargas pelos integralistas; o brutal homicídio de Marielle Franco; e a facada em Jair Bolsonaro. Sem contar os atos cometidos durante os regimes de exceção que vivemos ao longo dos anos. Fatos que chamam a atenção e mostram como a violência acompanha nossa história política e social.
Nos Estados Unidos, apenas no primeiro semestre de 2025, foram 150 ataques por motivação política, quase o dobro do mesmo período do ano anterior. Casos recentes incluem o assassinato da deputada estadual democrata Melissa Hartman e de seu marido, atentados a tiros contra o senador estadual John A. Hoffman e sua esposa, além da tentativa de incêndio na residência do governador da Pensilvânia. Tudo isso ocorrido neste ano (!). A violência não poupou nem mesmo a cúpula: o ex-presidente Donald Trump foi alvo de duas tentativas de assassinato em semanas consecutivas.
Esse cenário revela algo mais profundo, algo que costumo chamar, nas rodas de conversa, de futebolização da política. Assim como no futebol, onde paixão e fanatismo — amores sem qualquer limite ou racionalidade — ofuscam o racional, adversários se tornam inimigos e colocam a vida em risco. A política não pode virar arquibancada. Se seguirmos na lógica da futebolização, o jogo democrático corre o risco de perder o seu próprio raison d’être: a defesa da vida, da pluralidade e da liberdade.
A internet, nesse contexto, se torna um paradoxo: o mesmo ambiente que garante voz às pessoas pode retirar aquilo que é mais caro — o direito à vida. Além disso, algo que me chamou a atenção quando tomei nota do atentado foi que não apenas autoridades políticas estão na mira, mas também os shapeholders, influenciadores e formadores de opinião, que mesmo sem cargos eletivos acabam se tornando alvos. A partir do momento em que se vocaliza uma opinião, todos passam a ser potenciais alvos.
São tempos de muita apreensão. É preciso reconhecer que a radicalização e a violência não apenas ameaçam indivíduos, mas corroem o próprio sentido da política: a convivência entre diferentes. Quando a discordância deixa de ser mediada pela palavra e passa a ser decidida pela bala, não há mais democracia, apenas medo. Em tempos como esse, vale relembrar a máxima de Voltaire: “Discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo.”




