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A Primavera da Juventude

Como a participação massiva dos jovens nas eleições pode ser a solução da crise de identidade do campo progressista

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A Primavera da Juventude

Como a participação massiva dos jovens nas eleições pode ser a solução da crise de identidade do campo progressista

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No último domingo, enquanto o Brasil apurava o segundo turno, Belgrado buzinava. Aleksandar Vučić, que domina a política sérvia desde 2012, admitiu a derrota de seu partido para a Lista Estudantil, nascida de dois anos de protestos após o desabamento de uma marquise em Novi Sad que matou 16 pessoas.

A Sérvia não está sozinha. Em março, o Nepal deu quase dois terços do Parlamento ao partido de um ex-rapper de 35 anos, seis meses depois de jovens derrubarem o governo. Em abril, o comparecimento em massa de jovens nas eleições da Hungria resultou na saída do direitista Viktor Orbán do poder. Na Índia, em julho deste ano, um partido nascido como meme forçou a renúncia do ministro da Educação. Em Nova York, Zohran Mamdani foi eleito prefeito com o maior comparecimento desde 1969 e trouxe uma esquerda socialista ao governo pela primeira vez, em detrimento das forças tradicionais do Partido Democrata nos EUA. Na França, secundaristas tomam as ruas desde setembro. Estamos vivendo uma Primavera da Juventude, que aprendeu a converter indignação em voto.

Mas, por que agora?

E a resposta pode ser mais simples do que muitos esperam: porque o campo progressista reencontra o papel que havia perdido. Nos últimos anos, os progressitas foram empurrados a uma posição que nunca foi sua: a de guardião das instituições. Coube a eles defenderem tribunais, eleições e a imprensa. Edmund Burke fundou o conservadorismo em reação à Revolução Francesa, cujo marco simbólico é a Queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789. Mais de dois séculos depois, foi uma nova direita radical que reencenou o episódio invadindo o Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, e as sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023. O conservadorismo nascido contra a Revolução Francesa tornou-se revolucionário; a esquerda que foi fundada para transformar as instituições passou a protegê-las. Virou conservadora sem querer, e ficou perdida em uma profunda crise de identidade.

Não se trata de um conservadorismo qualquer. O campo progressista assumiu o que Samuel Huntington chamou de conservadorismo situacional, aquele que não tem programa estrutural próprio e reaparece quando a ordem estabelecida é ameaçada. Passou a defender os filtros contramajoritários que os conservadores criaram contra as paixões populares, como cortes, agências e bancos centrais, diante de uma direita que invoca o povo para derrubá-los. Até a retórica trocou de lado: contra a anistia do 8 de janeiro, a esquerda recorreu à tese da ameaça, que Albert Hirschman identificou no pensamento conservador, segundo a qual toda mudança põe em risco conquistas anteriores. E, mais do que uma posição, adquiriu uma disposição conservadora. Para Michael Oakeshott, ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, o testado ao não testado, o conveniente ao perfeito, o riso presente à felicidade utópica. Foi o que fez a esquerda ao tratar a Constituição de 1988 como horizonte, e não como ponto de partida, e ao trocar o “outro mundo é possível” pela defesa do mundo que existe. O credo seguiu igualitário; o temperamento tornou-se conservador. Eis a crise de identidade.

O papel de guardião tem seu preço. Quem defende a ordem existente responde por todos os seus defeitos, da desigualdade à vida de quem trabalha seis dias por semana, entregando à nova direita o monopólio da indignação e da ruptura. A saída pode estar inclusive na própria tradição conservadora. Burke advertia que um Estado sem os meios de alguma mudança está sem os meios de sua conservação; Disraeli salvou as instituições britânicas ampliando o voto, enquanto a Restauração francesa, que se recusou a mudar, caiu em 1830. Defender as instituições envolve reformá-las, e essa é a síntese que as ruas voltaram a oferecer.

Assim, a juventude devolve ao campo a bandeira da mudança. Nem todos os vencedores pertencem à esquerda (na Hungria, ganhou um dissidente conservador), mas as pautas das ruas são reformistas: escola digna, fim de privilégios, instituições mais populares e menos horas de trabalho. Não por acaso, Orbán e Vučić, expoentes da nova direita, caíram diante do voto dos jovens.

Seria ingênuo celebrar sem ressalvas. Em Madagascar, a revolta terminou nas mãos de militares; no Peru, jovens ajudaram a derrubar uma presidente e viram Keiko Fujimori eleita, filha do ex-ditador daquele país. Na Europa, são homens jovens que mais votam na extrema direita.

Agora, também no Brasil, a Primavera floresceu. O fim da escala 6x1 nasceu do desabafo viral de Rick Azevedo, balconista de farmácia no Rio; foi levado ao Congresso por Erika Hilton, deputada de primeiro mandato reeleita agora com mais de 1,5 milhão de votos, e se tornou emenda constitucional há poucos dias. Na segunda-feira seguinte à vitória da direita de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, estudantes da UFF tomaram as ruas de Niterói. E no dia seguinte, já havia mais de 40 atos em 14 estados e no DF, da UFPE à USP. Três semanas depois, Lula virou a eleição.

A pergunta para os progressistas é se saberão trocar o papel de guardião pelo de reformador. Ao redor do mundo, as novas gerações já mostraram que sabem derrubar governos e, cada vez mais, elegê-los.

Assim espero que alcancemos, então, um novo verão: o apogeu desta Primavera.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não necessariamente refletem a opinião do Eixo Político. Os textos buscam estimular o debate sobre temas importantes para o país, sempre prestigiando a pluralidade de ideias.

Autor

Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e mestrando em Direito Constitucional pelo IDP Brasilia. Advogado e consultor político em Brasília com atuação no Judiciário, Legislativo e Executivo.

Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e mestrando em Direito Constitucional pelo IDP Brasilia. Advogado e consultor político em Brasília com atuação no Judiciário, Legislativo e Executivo.

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